quarta-feira, 24 de fevereiro de 2021

Poesia não se aprende

 

Por Jânsen Leiros Jr.

É desabafo

é fantasia

e às vezes

é pura ficção

Também pode ser

um bate-papo

uma oração

uma DR imaginária

e necessária

Acontece de ser

um recado

uma declaração

uma satisfação

ou até pedido

de desculpa

Já foi pedido

de casamento

já foi adeus

por covardia

e até registro

de nascimento

Muitos são odes

à alegria

outros ofensas

e rebeldia

Cabem todas as

emoções

bem como todos

os motes

Não há razão

ainda que motivos

e sua lógica

é passional

A poesia brota improvável

Surge tanto da vontade

quanto da falta de

Amores se declaram

desamores se anunciam

pretensões se denunciam

e condições se oferecem

Poesia não se aprende

se faz

Algumas nem mesmo

têm sentido

mas todas têm uma

mesma fonte

Fevereiro 2021

Mentir-se

 

Por Jânsen Leiros Jr.

Foi-se a inspiração

Indesejada

Afastada

Arrancada à

foice

Foram-se os sonhos

Desfizeram-se ideias

Morreram projetos

Fecharam-se feridas

que nem mesmo existiram

 

Cicatriz invisível

que nem chega a doer

Um sofrer em silêncio

sem lembranças na tela

um filme apagado

de roteiro perdido

Cenário desfeito

atores dispersos

diálogos mudos

orquestra sem som

De volta o deserto

e o campo sem flor

A realidade que se

impõe à arte

A arte insistente

de amar

 

A verdade que

desfaz os amores

quase nunca

afetam os humores

Mas bem posso

pensar invertido!

Quem resiste

a um peito aberto

ou quem se nega

a um amor renegado?

 

Para tudo na vida

há oportuna solução

Até derramar-se

ao caminho os afetos

Talvez fingir

não senti-los

disfarçar não vê-los

ou quem sabe

desejar não tê-los

A arte de mentir-se

para talvez manter-se

Fevereiro 2021

Não espere por mim

 

Por Jânsen Leiros Jr.

Então é isso

e só isso mesmo

Nada além de zero

ou para além do nada

que se foi

Raso

Pífio

Minguante

Uma poça se muito

 

Nada novo na alma

tudo de novo na vida

Reiterado abandono

solidão rediviva

Sem itens a dividir

sem bens a partilhar

Nem um só bem querer

a lamentar

Triste realidade

de um ciclo finado

e de um tempo

para lá de esgotado

 

Como não aceitar

o óbvio que grita

de dia

e que sussurra

à noite?

Então ponho fim

à história

Concluo os poucos versos

e rascunho nova prosa

Seguirei pendular

e constante

amante incorrigível

Eu vou e volto

só não espere por mim

Fevereiro 2021

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2021

No silêncio talvez, na distância jamais

 

Por Jânsen Leiros Jr.

O silêncio inibe

e a distância amedronta

O silêncio se pretende

e a distância realiza

Se um causa receio

a outra provoca o medo

Não seria essa

a pretensão?

Se o silêncio escamoteia

os sentidos

a distância camufla

os impulsos

Inibe

Desencoraja

Alerta

 

O silêncio traduz

a vontade

e a distância nos deixa

à vontade

Porque se o silêncio

emudece a alma

a distância nos

cala no abismo

Não há quem

prefira tropeços

 

O silêncio esconde

o medo

e a distância encobre

o pavor

De um passo além

de um ato aquém

de um equívoco a mais

Se o silêncio

salvaguarda

e a distância dá

prudência

quem sem medo

se dispõe a enfrentar?

 

O silêncio faz pensar

e a distância ponderar

O primeiro grita aguarde

e o segundo diz descanse

Se é melhor ouvir o silêncio

melhor ainda é se afastar

da distância

Porque se no silêncio

até cabe talvez

na distância

só cabe jamais

Fevereiro 2021

Apagada

 

Por Jânsen Leiros Jr.

Pá de cal nas ideias

Fim dos papos sonados

Furado balão de ensaios

Game over

 

Acabou-se sem

nem mesmo ter sido

e implodido o que

sequer se ergueu

Não há passo

adiante

nem acorde a soar

Sequer houve

acordo final

Apenas um susto

inexplicável

uma frustrada

largada queimada

Fogo apagado

cinzas sopradas

chama extinta

 

Palavra engasgada

ecoa silente

vazio pesando

no fundo da alma

Como seria

              poderia

                ficaria

Melhor ficar

por aqui

 

Não é sempre

que finais súbitos

se antecipam

a promissores começos

Paixão desprezada

Luz apagada

Amor natimorto

Fevereiro 2021