sábado, 13 de abril de 2024

Último gosto


Por Jânsen Leiros Jr.

O que aconteceu

que já não soubesse?

Qual desfecho

já não pressentisse?

 

Não me era óbvio

o fim?

Não me estava claro

afinal?

 

Por razões

impostas a si

condenada e banida

foice à paixão

 

Morte ao amor

que sufocado

e calado

por asfixia letal

 

Assassinato sem corpo

e tumba vazia

Lápide caída e

memória perdida

 

Apressada e silente

condenação

de previdente e sumária

execução

 

Partiu-se do peito

um sonho abatido

ferida escondida

sentimento carpido

 

Último suspiro de dor

último verso com gosto

Último dedo de prosa

último poema de Agosto

Agosto 1986


Só



Por Jânsen Leiros Jr.

Família

          Clube

                  Povo

                         Solidão

 

Elas em festas

                    Eles se foram

 

Cada um com outro

                           Cada qual consigo

                                                    e eu

só

Outubro 1992

 

segunda-feira, 28 de agosto de 2023

Vida escorrendo


Por Jânsen Leiros Jr

Descontinuando a vida

em solidão persistente

Incômoda

Inclemente

Saudável mas nem por isso

contente


Trabalhos cessados

contas quitadas

amizades zeradas e

familiares nas fotos

Poeira tirada

roupa dobrada

paredes caiadas e

as plantas regadas


Desentupidas as calhas

rebatidos os pregos

aparada a grama e

afiadas as facas

Porão vazio

sótão trancado

panelas ariadas e

louça guardada


Senhas anotadas

documentos arrumados

despedidas enviadas e

agradecimentos explícitos

Embarque encerrado

chuva caindo

vida escorrendo

existência partindo

Agosto 2023

terça-feira, 4 de julho de 2023

Sofro mas finjo

Por Jânsen Leiros Jr.

Sofro

mas finjo

não sentir

Percebo

mas simulo

não entender

Ouço

como quem

não escuta

e vejo

como quem

não enxerga

 

Claro que

sofro

mas disfarço

não doer

Até quero

agindo como

sem querer

 

É o desencontro

entre

real e

verdadeiro

entre

essencial e

aparente

A expressão

da desistência

o despertar

do desamor

 

Pela manhã

ansiedade

à noite

decepção

Com o sol

perspectivas

quando à lua

desilusão

 

Se obsessão

por perfeição

traz por efeito

meus defeitos

compreensão

inesgotável

aversão

cruel

Indignação

perene

insatisfação

atroz

 

Beligerância

insistente

de uma

guerra sem

trégua

Silêncio

inexistente

de uma paz

sossobrada

 

Dias e horas

corridas

de um tempo

sofrido sem

pressa

 

Um martírio

de almas

punidas

desgastadas

condoídas

Lágrimas

prendidas

sorriso amarelo

vida brandida

Julho 2023


quinta-feira, 22 de junho de 2023

Crueldade à queima-roupa

Por Jânsen Leiros Jr.

O tempo passa

nossa jornada avança

o relógio não volta

e a vida se vai

Se esvai pelos

dedos das mãos

Por entre escolhas

atrás de equívocos

após confusões

 

Quanta existência

perdida

quanto desejo

tolhido

Um desamor

fabricado

por cada dor

requentada

Desperdício de

tudo

num dia a dia de

nada

 

Afinal

se os dias se vão

e em vão

devoramos as horas

Segundos

martelam

a parede

e minutos

aumentam a tensão

Hoje

bem menos

que ontem

mas depois

bem pior

que amanhã

 

Economizo lágrimas

disfarçando o pavor

escondendo a tristeza

dissimulando terror

Toda noite um silêncio

por vingança

e na cama um vazio

por castigo

Toda falta que

agora faz

um dia sei que

não fará

Adoraria que

o momento

fosse já

O peito ficando oco

a voz fazendo eco

pensamento deixando

louco

realidade vazando

meu fim

 

Meu choro supõe

confissão

e a alma

suplica emoção

Quem me dera

lembrasse de mim

e que por mim

insurgisse enfim

Mas tanto fez

que por hora

tanto faz

Pois o tanto

que já fiz

ninguém jamais

fará

 

Devaneando valentia

fingida

simulo ousadia

incontida

Liberto a vontade

trancada

gritando com coragem

tardia

Derrube este muro

Se lance no escuro

Refaça o futuro

e apague o passado

Aproveita o presente

que nos resta

pra sempre

 

De medo

estanco

Acordado receio

seu não

No temor da afronta

por exaustivos confrontos

me cubro teimoso

incitando meu corpo

Sucumbo à ilusão

 

Te tocando em

meus sonhos

carinhando em delírios

lamentando a mentira

que encaro ao ocaso

É o resto da sobra

é da xepa do amor

 

É o que temos

e é o que sou

E é o que somos

pelo tudo que tens

Porque ninguém dá

aquilo que não tem

Nem por pena

ou por bondade

Se o abandono é

tudo o que pode

é bem o que não

posso conter

Na verdade

é pura crueldade

e à queima-roupa

Junho 2023