segunda-feira, 4 de março de 2019

=> Barulhos da alma


Por Jânsen Leiros Jr.

Em minha varanda
sacada da vida
me debruço e
observo
Observo-me também
Escuto silente
pretendendo-me a ele
em mim

Carros passando
crianças gritando
serras cortantes e
contas vencidas
Aviões rasantes
policiais perseguindo
televisão nas alturas e
mais contas a vencer

Motocicletas aladas
pássaros cantantes
pescoço estalando e
o que fazer pro almoço?
Gatos miando
cachorros latindo
pessoas falando e
o pensamento voando

Um mundo tentando
se impor
Meu mundo querendo
impedir
O espírito fugindo
confuso
sem saber a quem
dar atenção
O universo parece
em silêncio
num agito surdo
e contido
Ou todos os sons
se calaram
ou ficaram aquém
dos barulhos da alma
Outubro 2018

=> Uma certa tristeza


Por Jânsen Leiros Jr.

É minha tristeza
sentir-me demais
de todo incapaz
grosserias a mais

É minha tristeza
um gesto sem gosto
ausência de afeto
sorriso sem graça

É minha certeza
você minha metade
uma meia verdade
minha tosca realidade

É minha tristeza
na casa dos outros
família dos outros
vivendo por outros

É minha tristeza
um peito emprestado
meu próprio enganado
um carinho implorado

É minha certeza
amor enterrado
papo encerrado
meu lenço encharcado

É minha tristeza
solidão a dois
eco no quarto
cama fazia

É minha tristeza
um peito banido
meu tempo perdido
amor desistido

É minha certeza
poesia travada
folha em branco
caneta num canto

Foi minha tristeza
sono chegando
meu dia acabando
a vida escapando

A minha certeza
vai-se à tristeza
Outubro 2001

Frutos que plantei


Por Jânsen Leiros Jr.

Há quem coma
do que não preparou
e há quem se sirva
do que não lutou
pra conquistar
Conheço muitos que
se locupletam
daquilo que não
produziram
e sei até de alguns
que se aproveitam
do que não lhes
pertence
Pelo mundo há
quem gaste o que
não juntou
e muitos outros
que juntam o que
o que furtaram
de outros tantos
Há quem se alimente
de migalhas
e viva arrotando
banquetes
bem como há quem
se farte e infarte
por seus próprios
feitos e mal feitos
Eu mesmo não tenho
do que reclamar
ainda que pouco
a lamentar
Não pode ser injusto
o justo querer de Deus
Não sofro pelo que
não fiz
ainda que feito
para outro preciso efeito
Jamais me pretendi
perfeito
Ninguém dá
o que não tem
muito menos o que
o que não prometeu
Ninguém faz além
do que pode
porque se fez
pôde
Não me sinto coitado
embora a dor do ajuste
nem faço cara feia
embora amargo remédio
Saboreio delícias e tristezas
Frutos que plantei
Caminho adiante
mantendo viva esperança
Esta porém
plantada em mim

Março 2019

Amor de consolo


Por Jânsen Leiros Jr.

É só mais uma perda
em meio a tantas outras
é só mais uma dor
fazendo doer um pouco mais
Essa doeu
na verdade
o tempo todo
Doía sem barulho
e eu a sofria sem terror
Sempre presente
dor latente e ansiosa
Doida pra doer em público
mas eu a mantinha
em segredo protetor
Quem sabe deixasse de doer
sem chegar a se tornar ferida
Não deixou
Chegou
E com o requinte dos algozes
golpeou
devastando sonhos
sucumbindo esperanças
acabando de vez com
a frágil confiança
Destruiu-se enfim
o que jamais existiu
Bodas de vento
amor de consolo
paixão de fumaça
Verdade flagrada dia a dia
escondida nas madrugadas
apagadas após reveladas
Cegueira desejada
fantasiada
inexistente
Sempre esteve tudo ali
Mas aqui o que é que havia?
Uma mentira ornamentada
um masoquismo disfarçado
uma dor sublimada
pelo riso na fachada
Agora o castelo ruiu
a dor de vez explodiu
O consentimento diluiu-se
indignado
e o fingimento acabou
de súbito
Minha dor já pode doer em paz
sem precisar fingir não ser

Março 2019

domingo, 17 de fevereiro de 2019

Virtualidade


Por Jânsen Leiros Jr.


Poucas letras
batem do outro
lado da tela
Querem me chamar
observar minha cena
Pretendem entrar
vasculhar minha agenda
Procuram por espaço
Algum tempo para
as tornem exclusivas
Atento
Atendo
Aceito
Correspondo
E logo me vejo
cativo
concentrado
desconcertado
Embora distantes
embora intocáveis
percebo respiração
inquieta
Na transpiração
o calor
Saberes que permitem
flagrar sensações
Não é possível
ver
mas bem possível
crer
que de um lado
como do outro
tudo esteja em
desordem
Ordem natural das
insolvências
Mas o que esperar
do desespero
da solidão
senão a fuga
por alguma
conexão
Desconexa ambiguidade
promovida na
virtualidade de uma
cruel realidade
Verdade negada
Há ligações
demais no mundo
e muitas
de longe
nos abraçam mais
que braços vizinhos
Não é o que se queria?
mas é o que se tem

Fevereiro 2019