quinta-feira, 7 de março de 2019

Refrescar os dias


Por Jânsen Leiros Jr.

O que define
remédio e veneno
é a dose
O que define
benção e armadilha
é o tanto de nós
nas escolhas
O quanto de mim
nas opções
Conveniências disfarçadas
encobrem tendências
e escondem vontades
Desejos que induzem
soluções
O que mais esperar
do que já acabou?
Não há nem restos
no pote sem fundo
e sem conteúdo
Foi benção um dia
ou terá sido um engano?
Por que não vi o tropeço
ou será que nunca foi
Quem sabe eu mesmo o fui
e talvez por isso me vá
de mal a pior
Melhor estancar
a sangria
drenar o estorvo
refrescar os dias
molhar o corpo
e salvar a vida
Ao menos a sua
ou talvez de todos
e de tudo
de mim
Fevereiro 2018

Empoderada pela fé


Por Jânsen Leiros Jr.

Por que não são
todas como ela
Por que não são
todas
Por que não
A virtude que transpira
inspira a muitos
que tantos outros
admiram
Sua força por enfeite
sua prudência por perfil
seu empenho se percebe
em cada passo do caminho
Nem bem o sol acordou
e ela já está praticando
Os detalhes não
lhe escapam
os perigos
nem pensar
De tudo e de todos cuida
sem nem mesmo piscar
Tem leoas por alunas
tem leões a lhe guardar
Mas há desejos incompletos
há carências em seu ser
Seu coração é sonhador
e seus olhos voam alto
Então ora e age
Age e ora
sabe de quem vem
a resposta
e sem demora
De mangas suspensas
ao que planeja
se dedica
Nada teme senão
a inércia diante da vida
ou mesmo o medo
à espera da morte
Seus joelhos calejados
por pedidos suplicados
têm o costume da presença
de quem a fez mulher
Agradece o pão
em cada grão
sem negar situação
Ao findar do dia
ao deitar no chão
não reclama da sorte
e nada há que lhe acorde
Amanhã o sol renasce
e as forças lhe renovam
Junto aos raios
de cada dia
empoderada pela fé
agiganta-se na esperança
de quem se obriga ao rigor
pelo exercício o vigor
de confiar plenamente
em Deus
Braços de quem
se abandona
Março 2019

Utilidade e conveniências


Por Jânsen Leiros Jr.

Utilidade
e conveniência
Tanto quanto
adequações
às preferências
Por aquelas se suporta
doente presente
Já por estas se camufla
ausência latente
Buscamos agradar
em tudo
para quem sabe
atrair a todos
quando deveríamos
provocar
por ofício de missão
pela loucura o desprezo
pelo confronto o ódio
pela ousadia perseguição
Não que o seja
por predileção
mas por inevitável
reação
Quem suporta
a piedade?
Multidões de títeres
replicando
frases e textos
gestos e objetos
emoções e contextos
Fugazes sensações
Produzimos uma
ópera bufa
entretenimento místico
enquanto servimos de
audiência garantida
ao delírio humano
e a interesses
pra lá de desumanos

Março 2019

terça-feira, 5 de março de 2019

Cenas inéditas


Por Jânsen Leiros Jr.

Quem pode saber
o que sinto
o que penso
ou que quero
Quem pode saber
ou quem pode
comigo viver
Quem pode comigo?
Conviver é uma arte
Fui treinada
no disfarce
na aparência
e na ficção
Finjo como poucos
engano como nunca
Se engana quem
me acredita de ponta
ou me entende pronta
Quem se credita a conta
de ter sido o melhor?
Se me confundo nas emoções
e desconheço as sensações
tenho claro o que penso
E como penso!
Creio com muitas dúvidas
mas suspeito com
alguma certeza
não haver pra mim saída
no apagar final das luzes

Verdade ou circunstância
na realidade estou farta
Exausta
de críticas sem critérios
de acusações infundadas
e de juízos injustos
Cansei da presunção
e da arrogância
de quem imagina
me conhecer inteira
Quem afinal conhece
o que acontece aqui
tanto quanto acontece em si?
Talvez eu possa virar a mesa
quem sabe eu possa
descer do palco
Quero apenas e um pouco
fechar as cortinas
e desafiar quem
rascunhou esse script
tenebroso
desgastante
desumano
e mortal
Porque não quero
Nenhum novo papel
nem preciso mudar de cenário
Posso eu mesma
reescrever minha história
Incluindo diálogos
interessantes
deixas bem marcadas
e improvisos oportunos
Trabalhando as entrelinhas
de cenas inéditas
capítulos novos
com coadjuvantes generosos
Devolvendo ao público
meu maior prazer
surpreendendo a todos
e inclusive a mim
Experimentando de uma
vez e pra sempre
meu desejado final feliz

Fevereiro 2018

segunda-feira, 4 de março de 2019

Crueldade aplicada


Por Jânsen Leiros Jr.

Somos o que somos
apesar de quererem
que sejamos apenas
aquilo que esperam de nós
Podemos fingir ser
o que pretendem
sendo o que não somos
Bajulação que agrada
em parte
e nos desagrada em tudo
Mera busca por um
convívio de migalhas
Desejo de pertencer

Sendo o que não se é
macula-se a alma
aprisiona-se o espirito
e adoece o corpo
Sendo o que não se é
Chega-se a tudo
menos à verdade
Sorrisos e flashes
são todos mentira
de abraços comedidos
beijos falsos
e relações fingidas
Personagens que se
confundem no engano
embora elaborada fantasia
Um make
um fake
one mistake
E ainda que seja
um verdadeiro tropeço
não legitima
o vigor da falácia
Rasgam-se as capas
rompem-se ilusões
derrubando-se as máscaras

Conveniências atendidas
condescendências oportunas
complacências egoístas
e existências alijadas
Maldades que planejadas
tramadas pra morte
isolam o sofrido
e lhe sequestram
a identidade
Pura crueldade aplicada
minha carcaça um troféu

E ainda que Deus
restaure a autoestima
nossa nudez e penúria
são bem-vindas
Revelações sem cera
Pena que sendo
quem somos
o vício se alimenta
As tristezas se repetem
e as almas se repelem
Tudo igual e outra vez

Fevereiro 2018