quinta-feira, 1 de abril de 2021

Sabemos quem perdeu

 

Por Jânsen Leiros Jr.

São muitos

são milhares

milhões

mas podia ser

apenas um

O seu

o meu

um nosso

desconhecido

Porque consequências

são um destino

inevitável

e a morte

uma possibilidade

desagradável

 

Ninguém se importa

ou se importou

somos vistos

com a lente

da conveniência

Números distantes

calculados como

perdas circunstantes

- Necessárias a um

bem maior

- Mártires

E ainda teremos

banda de música

em datas que

não viveremos

- E daí?

Somos empilhados

em tempos de

adoecimento e dor

Há congestionamento

no caminho

da morte

e há preguiça

na solução à vida

O vazio cresce

mas sepulturas

transbordam

 

Enquanto brigamos

por lados

eles nos atravessam

ao meio

Nos dividem

em pedaços e

nos abandonam

aos leões

Somos espetáculo

animais enjaulados

pragas separadas

e ainda podia

ser pior

 

A empatia

aposentou-se

o acolhimento

se ausentou

a compaixão

se foi

e a humanidade

morreu

Se não sabemos

muito bem

quem com

isso tudo ganhou

sem qualquer

surpresa

bem sabemos

quem perdeu

Abril 2021

Não quero querer só

 

Por Jânsen Leiros Jr.

Eu espero a voz

as palavras

os espaços e

a falta deles

Tudo remete a você

O tom

   o silêncio

      os acordes

tudo lembra

nada esquece

 

Eu espero

eu penso

me repenso

e sinto

Quero cruzar fronteiras

derrubar barreiras

escapar das redes

e viver de novo

a vida ao vivo

 

Vivo querendo

            torcendo

               pedindo

Não meço e

nem economizo

na vontade do

prazer contigo

Porque em nada

me percebe

por mais que

me declare

 

Você me ouve

e eu te escuto

Mas preciso ir além

Pretendo o toque

                   o beijo

                     e o abraço

Tomara que os aguarde

tanto quanto me queira

Porque não quero

querer só

muito menos

viver assim

Abril 2021

domingo, 21 de março de 2021

Sem soro e sem vela

 

Por Jânsen Leiros Jr.

Seu descaso

é flagrante

e seu veneno

sentido

Seu desprezo

é visível

e seu desdém

é letal

 

Sua alma

me odeia

seu corpo

me tem asco

seus olhos

me fulminam

sua essência

me vomita

 

Se pudesse

mataria

se fizesse

negaria

se fugisse

morreria

e se pedisse

eu faria

 

Sinto tanto

seu ódio

que faz uso

por ópio

do juízo e

da tortura

com prazer

e crueldade

 

Escurecem-me

os olhos

desvanecem

meus sonhos

desordenam

as batidas

me paralisam

reflexos

 

O que de mais

pode ser pior

é o que

de menos percebi

de nós

Caiu a ficha

e quebrei a cara

E já foi tarde

 

Mordido

e mortalmente

sem soro

e sem vela

sinto muito

Não pretendo sofrer

não consigo correr

e por mais

assustador

nem planejo

partir

Março 2021

sábado, 20 de março de 2021

Nunca mais me expor

 

Por Jânsen Leiros Jr.

Guardar o peito

os olhares

as orelhas e

os impulsos

Segurar a onda

fugir da correnteza

evitar a cachoeira e

escapar da avalanche

Não me permitir

transparecer

evitar me revelar

encobrir sensações e

dissimular emoções

Disfarçar os sentidos

restaurar as visões

unificar as versões e

descascar as lições

Esquecer as intrigas

evitar tropeções

contornar armadilhas e

e encontrar a saída

Jamais me deixar levar

aprender a me reconduzir

abandonar banais confissões e

nunca mais me expor

Deixar de ser tolo

largar meu cordel de ilusões

perder minhas peias e

abandonar impróprias razões

Março 2021

domingo, 14 de março de 2021

Jamais me corrijo

 

Por Jânsen Leiros Jr.

Foi muito

por muito pouco

ou quase nada

Foi menos

do que podia

podendo ao menos

ter sido bom

E foi

Mas foi-se

e por muito menos

que o imaginado

 

Falas duras

e acaloradas

Falas mansas

impregnadas

Falas finais

e bloqueadas

Outro fim mal

começado

A verdade nunca

importou

O argumento

não sustentou

O que se queria

era o fim

e foi

ainda que negado

 

Porque textos

podem maquiar

e versos bem escritos

podem encantar

mas as verdades

estão nas entrelinhas

         nas pausas

         nos tons

As velhas respostas

sempre dadas

às mesmas perguntas

nunca feitas

Foi pouco

mas foi na conta

Imagine uma estrada

             algumas jornadas

            uma vida

Quem sabe

não fosse a morte?

 

Voltas finitas

curso encerrado

ciclos findados

Tudo se pertence

e nada se completa

Tudo se fala

mas não se entende

Todos se escutam

mas ninguém se interessa

Por que nunca

me assusto?

Por que sempre

me rendo?

Por que jamais

me corrijo? 

Março 2021