segunda-feira, 4 de março de 2019

Como mudar a sorte


Por Jânsen Leiros Jr.

Conta a minguante do dia
cata a migalha de pão
Vejo a miséria da fome
sinto o desprezo do rei

Não há sentido em acordar
nem há lugar onde dormir
Me faltam lágrimas para chorar
e motivos para sorrir

Como viver
sem ter onde morrer?
Como apontar
para o que ninguém vê?

Como sempre
o que sobra
Como mudar a
própria sorte?

Talvez vendendo a alma
como se alguém a
pudesse comprar

Janeiro 1992

=> Barulhos da alma


Por Jânsen Leiros Jr.

Em minha varanda
sacada da vida
me debruço e
observo
Observo-me também
Escuto silente
pretendendo-me a ele
em mim

Carros passando
crianças gritando
serras cortantes e
contas vencidas
Aviões rasantes
policiais perseguindo
televisão nas alturas e
mais contas a vencer

Motocicletas aladas
pássaros cantantes
pescoço estalando e
o que fazer pro almoço?
Gatos miando
cachorros latindo
pessoas falando e
o pensamento voando

Um mundo tentando
se impor
Meu mundo querendo
impedir
O espírito fugindo
confuso
sem saber a quem
dar atenção
O universo parece
em silêncio
num agito surdo
e contido
Ou todos os sons
se calaram
ou ficaram aquém
dos barulhos da alma
Outubro 2018

=> Uma certa tristeza


Por Jânsen Leiros Jr.

É minha tristeza
sentir-me demais
de todo incapaz
grosserias a mais

É minha tristeza
um gesto sem gosto
ausência de afeto
sorriso sem graça

É minha certeza
você minha metade
uma meia verdade
minha tosca realidade

É minha tristeza
na casa dos outros
família dos outros
vivendo por outros

É minha tristeza
um peito emprestado
meu próprio enganado
um carinho implorado

É minha certeza
amor enterrado
papo encerrado
meu lenço encharcado

É minha tristeza
solidão a dois
eco no quarto
cama fazia

É minha tristeza
um peito banido
meu tempo perdido
amor desistido

É minha certeza
poesia travada
folha em branco
caneta num canto

Foi minha tristeza
sono chegando
meu dia acabando
a vida escapando

A minha certeza
vai-se à tristeza
Outubro 2001

Frutos que plantei


Por Jânsen Leiros Jr.

Há quem coma
do que não preparou
e há quem se sirva
do que não lutou
pra conquistar
Conheço muitos que
se locupletam
daquilo que não
produziram
e sei até de alguns
que se aproveitam
do que não lhes
pertence
Pelo mundo há
quem gaste o que
não juntou
e muitos outros
que juntam o que
o que furtaram
de outros tantos
Há quem se alimente
de migalhas
e viva arrotando
banquetes
bem como há quem
se farte e infarte
por seus próprios
feitos e mal feitos
Eu mesmo não tenho
do que reclamar
ainda que pouco
a lamentar
Não pode ser injusto
o justo querer de Deus
Não sofro pelo que
não fiz
ainda que feito
para outro preciso efeito
Jamais me pretendi
perfeito
Ninguém dá
o que não tem
muito menos o que
o que não prometeu
Ninguém faz além
do que pode
porque se fez
pôde
Não me sinto coitado
embora a dor do ajuste
nem faço cara feia
embora amargo remédio
Saboreio delícias e tristezas
Frutos que plantei
Caminho adiante
mantendo viva esperança
Esta porém
plantada em mim

Março 2019

Amor de consolo


Por Jânsen Leiros Jr.

É só mais uma perda
em meio a tantas outras
é só mais uma dor
fazendo doer um pouco mais
Essa doeu
na verdade
o tempo todo
Doía sem barulho
e eu a sofria sem terror
Sempre presente
dor latente e ansiosa
Doida pra doer em público
mas eu a mantinha
em segredo protetor
Quem sabe deixasse de doer
sem chegar a se tornar ferida
Não deixou
Chegou
E com o requinte dos algozes
golpeou
devastando sonhos
sucumbindo esperanças
acabando de vez com
a frágil confiança
Destruiu-se enfim
o que jamais existiu
Bodas de vento
amor de consolo
paixão de fumaça
Verdade flagrada dia a dia
escondida nas madrugadas
apagadas após reveladas
Cegueira desejada
fantasiada
inexistente
Sempre esteve tudo ali
Mas aqui o que é que havia?
Uma mentira ornamentada
um masoquismo disfarçado
uma dor sublimada
pelo riso na fachada
Agora o castelo ruiu
a dor de vez explodiu
O consentimento diluiu-se
indignado
e o fingimento acabou
de súbito
Minha dor já pode doer em paz
sem precisar fingir não ser

Março 2019