segunda-feira, 4 de março de 2019

Crueldade aplicada


Por Jânsen Leiros Jr.

Somos o que somos
apesar de quererem
que sejamos apenas
aquilo que esperam de nós
Podemos fingir ser
o que pretendem
sendo o que não somos
Bajulação que agrada
em parte
e nos desagrada em tudo
Mera busca por um
convívio de migalhas
Desejo de pertencer

Sendo o que não se é
macula-se a alma
aprisiona-se o espirito
e adoece o corpo
Sendo o que não se é
Chega-se a tudo
menos à verdade
Sorrisos e flashes
são todos mentira
de abraços comedidos
beijos falsos
e relações fingidas
Personagens que se
confundem no engano
embora elaborada fantasia
Um make
um fake
one mistake
E ainda que seja
um verdadeiro tropeço
não legitima
o vigor da falácia
Rasgam-se as capas
rompem-se ilusões
derrubando-se as máscaras

Conveniências atendidas
condescendências oportunas
complacências egoístas
e existências alijadas
Maldades que planejadas
tramadas pra morte
isolam o sofrido
e lhe sequestram
a identidade
Pura crueldade aplicada
minha carcaça um troféu

E ainda que Deus
restaure a autoestima
nossa nudez e penúria
são bem-vindas
Revelações sem cera
Pena que sendo
quem somos
o vício se alimenta
As tristezas se repetem
e as almas se repelem
Tudo igual e outra vez

Fevereiro 2018

Como mudar a sorte


Por Jânsen Leiros Jr.

Conta a minguante do dia
cata a migalha de pão
Vejo a miséria da fome
sinto o desprezo do rei

Não há sentido em acordar
nem há lugar onde dormir
Me faltam lágrimas para chorar
e motivos para sorrir

Como viver
sem ter onde morrer?
Como apontar
para o que ninguém vê?

Como sempre
o que sobra
Como mudar a
própria sorte?

Talvez vendendo a alma
como se alguém a
pudesse comprar

Janeiro 1992

=> Barulhos da alma


Por Jânsen Leiros Jr.

Em minha varanda
sacada da vida
me debruço e
observo
Observo-me também
Escuto silente
pretendendo-me a ele
em mim

Carros passando
crianças gritando
serras cortantes e
contas vencidas
Aviões rasantes
policiais perseguindo
televisão nas alturas e
mais contas a vencer

Motocicletas aladas
pássaros cantantes
pescoço estalando e
o que fazer pro almoço?
Gatos miando
cachorros latindo
pessoas falando e
o pensamento voando

Um mundo tentando
se impor
Meu mundo querendo
impedir
O espírito fugindo
confuso
sem saber a quem
dar atenção
O universo parece
em silêncio
num agito surdo
e contido
Ou todos os sons
se calaram
ou ficaram aquém
dos barulhos da alma
Outubro 2018

=> Uma certa tristeza


Por Jânsen Leiros Jr.

É minha tristeza
sentir-me demais
de todo incapaz
grosserias a mais

É minha tristeza
um gesto sem gosto
ausência de afeto
sorriso sem graça

É minha certeza
você minha metade
uma meia verdade
minha tosca realidade

É minha tristeza
na casa dos outros
família dos outros
vivendo por outros

É minha tristeza
um peito emprestado
meu próprio enganado
um carinho implorado

É minha certeza
amor enterrado
papo encerrado
meu lenço encharcado

É minha tristeza
solidão a dois
eco no quarto
cama fazia

É minha tristeza
um peito banido
meu tempo perdido
amor desistido

É minha certeza
poesia travada
folha em branco
caneta num canto

Foi minha tristeza
sono chegando
meu dia acabando
a vida escapando

A minha certeza
vai-se à tristeza
Outubro 2001

Frutos que plantei


Por Jânsen Leiros Jr.

Há quem coma
do que não preparou
e há quem se sirva
do que não lutou
pra conquistar
Conheço muitos que
se locupletam
daquilo que não
produziram
e sei até de alguns
que se aproveitam
do que não lhes
pertence
Pelo mundo há
quem gaste o que
não juntou
e muitos outros
que juntam o que
o que furtaram
de outros tantos
Há quem se alimente
de migalhas
e viva arrotando
banquetes
bem como há quem
se farte e infarte
por seus próprios
feitos e mal feitos
Eu mesmo não tenho
do que reclamar
ainda que pouco
a lamentar
Não pode ser injusto
o justo querer de Deus
Não sofro pelo que
não fiz
ainda que feito
para outro preciso efeito
Jamais me pretendi
perfeito
Ninguém dá
o que não tem
muito menos o que
o que não prometeu
Ninguém faz além
do que pode
porque se fez
pôde
Não me sinto coitado
embora a dor do ajuste
nem faço cara feia
embora amargo remédio
Saboreio delícias e tristezas
Frutos que plantei
Caminho adiante
mantendo viva esperança
Esta porém
plantada em mim

Março 2019