quinta-feira, 7 de março de 2019

Utilidade e conveniências


Por Jânsen Leiros Jr.

Utilidade
e conveniência
Tanto quanto
adequações
às preferências
Por aquelas se suporta
doente presente
Já por estas se camufla
ausência latente
Buscamos agradar
em tudo
para quem sabe
atrair a todos
quando deveríamos
provocar
por ofício de missão
pela loucura o desprezo
pelo confronto o ódio
pela ousadia perseguição
Não que o seja
por predileção
mas por inevitável
reação
Quem suporta
a piedade?
Multidões de títeres
replicando
frases e textos
gestos e objetos
emoções e contextos
Fugazes sensações
Produzimos uma
ópera bufa
entretenimento místico
enquanto servimos de
audiência garantida
ao delírio humano
e a interesses
pra lá de desumanos

Março 2019

terça-feira, 5 de março de 2019

Cenas inéditas


Por Jânsen Leiros Jr.

Quem pode saber
o que sinto
o que penso
ou que quero
Quem pode saber
ou quem pode
comigo viver
Quem pode comigo?
Conviver é uma arte
Fui treinada
no disfarce
na aparência
e na ficção
Finjo como poucos
engano como nunca
Se engana quem
me acredita de ponta
ou me entende pronta
Quem se credita a conta
de ter sido o melhor?
Se me confundo nas emoções
e desconheço as sensações
tenho claro o que penso
E como penso!
Creio com muitas dúvidas
mas suspeito com
alguma certeza
não haver pra mim saída
no apagar final das luzes

Verdade ou circunstância
na realidade estou farta
Exausta
de críticas sem critérios
de acusações infundadas
e de juízos injustos
Cansei da presunção
e da arrogância
de quem imagina
me conhecer inteira
Quem afinal conhece
o que acontece aqui
tanto quanto acontece em si?
Talvez eu possa virar a mesa
quem sabe eu possa
descer do palco
Quero apenas e um pouco
fechar as cortinas
e desafiar quem
rascunhou esse script
tenebroso
desgastante
desumano
e mortal
Porque não quero
Nenhum novo papel
nem preciso mudar de cenário
Posso eu mesma
reescrever minha história
Incluindo diálogos
interessantes
deixas bem marcadas
e improvisos oportunos
Trabalhando as entrelinhas
de cenas inéditas
capítulos novos
com coadjuvantes generosos
Devolvendo ao público
meu maior prazer
surpreendendo a todos
e inclusive a mim
Experimentando de uma
vez e pra sempre
meu desejado final feliz

Fevereiro 2018

segunda-feira, 4 de março de 2019

Crueldade aplicada


Por Jânsen Leiros Jr.

Somos o que somos
apesar de quererem
que sejamos apenas
aquilo que esperam de nós
Podemos fingir ser
o que pretendem
sendo o que não somos
Bajulação que agrada
em parte
e nos desagrada em tudo
Mera busca por um
convívio de migalhas
Desejo de pertencer

Sendo o que não se é
macula-se a alma
aprisiona-se o espirito
e adoece o corpo
Sendo o que não se é
Chega-se a tudo
menos à verdade
Sorrisos e flashes
são todos mentira
de abraços comedidos
beijos falsos
e relações fingidas
Personagens que se
confundem no engano
embora elaborada fantasia
Um make
um fake
one mistake
E ainda que seja
um verdadeiro tropeço
não legitima
o vigor da falácia
Rasgam-se as capas
rompem-se ilusões
derrubando-se as máscaras

Conveniências atendidas
condescendências oportunas
complacências egoístas
e existências alijadas
Maldades que planejadas
tramadas pra morte
isolam o sofrido
e lhe sequestram
a identidade
Pura crueldade aplicada
minha carcaça um troféu

E ainda que Deus
restaure a autoestima
nossa nudez e penúria
são bem-vindas
Revelações sem cera
Pena que sendo
quem somos
o vício se alimenta
As tristezas se repetem
e as almas se repelem
Tudo igual e outra vez

Fevereiro 2018

Como mudar a sorte


Por Jânsen Leiros Jr.

Conta a minguante do dia
cata a migalha de pão
Vejo a miséria da fome
sinto o desprezo do rei

Não há sentido em acordar
nem há lugar onde dormir
Me faltam lágrimas para chorar
e motivos para sorrir

Como viver
sem ter onde morrer?
Como apontar
para o que ninguém vê?

Como sempre
o que sobra
Como mudar a
própria sorte?

Talvez vendendo a alma
como se alguém a
pudesse comprar

Janeiro 1992

=> Barulhos da alma


Por Jânsen Leiros Jr.

Em minha varanda
sacada da vida
me debruço e
observo
Observo-me também
Escuto silente
pretendendo-me a ele
em mim

Carros passando
crianças gritando
serras cortantes e
contas vencidas
Aviões rasantes
policiais perseguindo
televisão nas alturas e
mais contas a vencer

Motocicletas aladas
pássaros cantantes
pescoço estalando e
o que fazer pro almoço?
Gatos miando
cachorros latindo
pessoas falando e
o pensamento voando

Um mundo tentando
se impor
Meu mundo querendo
impedir
O espírito fugindo
confuso
sem saber a quem
dar atenção
O universo parece
em silêncio
num agito surdo
e contido
Ou todos os sons
se calaram
ou ficaram aquém
dos barulhos da alma
Outubro 2018